06/12/2011

Perdoe-se

Ela estava sentada em sua cadeira do escritório, os braços apoiados e o olhar vazio. Parecia que não estava ali. Sua mesa estava repleta de papéis e o pensamento estava longe. Ela foi lá atrás, ela pensava nos filhos. Será que fez tudo certo? Será que educou direito?

Ela fez sim, ela fez o que pode em cada situação que viveu. Para ela, a busca da felicidade é a busca de alguma coisa que precisa para preencher o vazio que sente.

Os filhos cresceram e acham que sabem mais que ela. Não, eles não sabem. Eles não sabem do amor que nutria por cada um desde o ventre. Eles não sabem das noites sem dormir, a dor e o prazer em alimentar com seu próprio sumo cada um deles. A busca frenética pela melhor curso. As vezes em que foi à escola correndo levar um livro que sempre esqueciam.

Sim, definitivamente ela foi uma excelente mãe. Ela sempre foi cuidadosa, carinhosa e não tinha medo de expressar o que sentia. Cada abraço, cada beijo cada “eu te amo” foi dado com todo amor que sempre nutriu por eles.

Mas e dentro da cabeça de cada um? Como eles viam seus relacionamentos começando e terminando? Cada um terminando de uma forma diferente. Ela sofreu, ela chorou, ela suspirou de alívio, no entanto o que pensavam seus filhos? Será que eles a viam como uma supermãe. Uma mãe virgem? Sim. Os filhos acham que as mães são virgens. Pode ser hilário, mas os filhos homens não querem nem imaginar a mãe com outro homem, no máximo com o pai.

Nesse momento, o telefone tocou e ela o atendeu rapidamente como se quisesse realmente sentir cada emoção do que recordara. Rapidamente voltou seus pensamentos onde havia parado.

A pergunta era: “Será que fui boa mãe?”. Sim, ela foi a melhor mãe que pôde. Ela foi a mãe real. A única que podia ser. Ela não teve medo ao se separar com os filhos ainda pequenos. Seu casamento já não existia mais. O amor que nutria por aquele homem maravilhoso já havia ido embora e ela sequer sabia há quanto tempo.

Ela carregou por uns bons anos um mundo de culpas nas costas, mas naquele momento percebeu que não havia do que se culpar. Não havia do que se arrepender. Lembrou-se do que sua tia havia lhe falado quando ainda era adolescente, porém nunca esqueceu: “Devemos nos arrepender daquilo que não fizemos.”

Ora, de que ela se arrependeria então? De que perdão ela precisa. Ela não precisa pedir perdão do que não há para perdoar. Ela se perdoou. Ela não podia ter se sentido mal por tentar ser feliz e essa busca ainda não acabou. Ela vai tentar sempre. E se não der certo, vai tentar de novo e de novo. Subitamente, despertou de quase um transe. Ajeitou sua mesa de seu escritório, levantou-se e olhou-se no espelho.

Olhando-se atentamente viu uma mulher forte, madura com uma grande bagagem nas costas, mas sem nunhum peso na consciência. O que ela quer é encontrar o que tanto busca. Ela sabe que é uma paixão, mas não descobriu ainda pelo que. Um homem? Seu realização profissional? Uma outra faculdade? Ela não sabe, mas a certeza que tem em seu coração é de que não vai parar, pois um dia vai encontrar.

E os filhos? Os filhos um dia vão entender. Eles vão crescer mais, vão viver mais, vão amadurecer e entenderam a mãe da mesma forma que ela entendeu a mãe dela. 

#VANIACARVALHO